21 de julho de 2015

Orvalho

Pela manhã, olhando-se no espelho, notou algumas novas rugas ao redor dos olhos escurecidos pela insonia.
Fazia muito tempo desde a ultima vez em que se sentira dessa maneira. 
O gosto do desejo ainda percorria cada canto de sua boca, era de um aroma suave e delicado.
Ela passou os dedos pelos cabelos, sujos pelo suor da noite passada.
Finalmente decidiu entrar no banho.
Fez o que tinha de ser feito com  atenção aos detalhes.
Tomou um café preto, sentiu uma breve vontade de acender um cigarro, mas se conteve... Não voltaria a fumar e estava decidida...
Carmen, era jovem mas experiente, curvilínea, com longos cabelos, e costumava usar roupas curtas... Era do tipo tomboy, se dava melhor com homens, bebeu cerveja melhor que ninguém durante anos. Com o tempo foi se afastando de tudo o que diziam que fazia mal à ela... Especialmente os amores.
Talvez fosse por conta de tantas histórias de quase morte, em que mais de uma vez se entregou às vontades do corpo.

Pensou nisso tudo durante aquela manhã de temperatura amena.
No caminho para o trabalho, ela pensava em como equilibrar a nova vida.
Não queria mais se entregar, mas sentia falta da emoção que é viver diante de um abismo.
Aumentou o volume da música e decidiu esquecer a ideia.
Lembrou da noite anterior, em que se entregou ao desejo.
Lembrou dos antigos escritos... Jamais havia citado seu nome antes. Sentia-se viva, apesar de ter morrido tantas vezes.
De uma vez por todas decidiu estar livre. Se entregaria àquele desejo quantas vezes fosse possível, mas não sucumbiria ao apego por ele. Queria evitar sofrimentos.
De repente, um toque desviou os pensamentos. Conhecia aquele toque, sentiu aquele toque a noite inteira. O corpo arrepiado por um instante e em uma volta os cabelos a cegaram.
Ele afastou os fios de seu rosto com delicadeza e perguntou se estava tudo bem.
Ela enrubesceu e apenas acenou com a cabeça.
O caminho era curto e ela andava a passos rápidos. Tentando fugir dos seus pensamentos. Os carros passavam rápidos pela avenida e ela transitava com segurança em meio a eles. 
Carmen chamava atenção por onde andava. Apesar dos pequenos defeitos que constantemente a assombrava, homens e mulheres a olhavam com admiração.
Decidiu afastar de vez aqueles pensamentos apertando o passo. Chegou exausta.
Bebeu um gole de água, longo e voraz.
E passou o dia batalhando com seus pensamentos.
Um turbilhão de pensamentos.
No fim do dia ela estava sempre exausta.
Uma guerra intensa.
Carmen perdia lentamente.



Para ler ouvindo - Carmen