21 de outubro de 2014

Na seca

As dores começaram no inicio da noite, pareciam facas afiadas sendo lentamente cravadas na carne, passando pelos músculos e chegando aos ossos.
Um cheiro terrível de cinzeiro velho, de whisky vencido, de mofo. 
Uma mistura de cheiros do passado que fazia o nariz coçar e espirrava sem parar.
Embrulhava o estomago e a mente viajava pra longe,
Era um daqueles dias que tinha começado errado e não muito cedo iria melhorar.
Uns gritos daqui, um atraso ali e tudo ia por água abaixo. 
Parecia que não ia ter fim.
Finalmente algumas gotas caíram do céu e aquela seca se foi lentamente.
Também se foram algumas esperanças de mudança, de renovo, e ela se tocou que aquela vida era uma mentira.
Estava ali apenas para satisfazer o ego de outro alguém.
Salvação utópica com sorriso estampado e escancarado cobrindo suas feridas que pulsavam, sangravam e exalavam cheiro de podre.
Não haviam muitas coisas a serem feitas, a não ser esperar que aquela chuva fina cessasse e ela pudesse sair e tentar sobreviver na caótica cidade cinza. 
Era o que tinha pra agora. 

6 de outubro de 2014

De volta a meia noite

Eu precisava vomitar grandes palavras.

pra ler ouvindo: Marc Demarco

__________________________________________________

Um dia eu estava me sentindo tão alheia ao mundo, que decidi sentar na privada e lembrar de quando eu fumava... Tossi. O cheiro do cigarro me embrulha o estomago.
Eu precisava daquela tossida, cara. Vomitei tudo que estava entalado ali.

Tinha umas lembranças que jamais sairiam da minha mente... Uma garota que passou na minha vida e de repente desapareceu... Um olhar ou outro que me faziam sorrir e ficar nessa nostalgia do cacete.
Eu não falo mais tanto palavrão. Então as coisas vão se acumulando aqui dentro... até que um dia eu vou explodir.
A coisa não vai ser bonita assim. Não vai ser uma explosão de cores e flores... acredite.
Mas se é pra jogar a merda no ventilador a gente esculhamba mesmo e acaba falando umas coisas desnecessárias.

Já nem tenho mais as palavras de antes e se é pra ser ridícula, a gente vai sendo ridícula sozinha... pq assim fica mais interessante. E bem mais fácil de reclamar da vida nas redes sociais.

Um dia eu estava escrevendo detalhadamente uma cena, com direito a cafeina, cigarros e garrafas espalhadas pelo chão... a cena era sempre a mesma. Quando eu cansei e matei a tal personagem, todo o resto desapareceu com ela: as pessoas que liam os textos, as roupas legais, o corpo gostosinho da juventude, a autodestruição e a esperteza daqueles dias insanos.
Cara, era tudo muito subliminar mas eu tinha q matar essa vontade de te ver.

Quando ela desceu a avenida, meio cambaleando e dançando e abraçando a colega do lado, queimou o terno de um engraçadinho engomado que passava ali. hora errada, lugar errado, mira certissima.
fez um rombo tão grande no terno do rapaz, que ele foi obrigado a jogar o terno fora.
pelo menos serviu pra algum morador de rua se esquentar por uns dias.


Viu... eu precisava vomitar essas palavras sem sentido e sem nexo pra muitas pessoas... mas pra mim sempre fez sentido.

Eu sinto saudades.

27 de julho de 2014

E os céus desabam.

Contínuo e decadente, sobrevoaram os céus em busca de alguma alma viva e de nada lhe restaram além da esperança.
Criaram suas próprias teorias enquanto homens e mulheres se contorciam em agonia. era de se esperar, já que viveram no caos durante milhares de anos. Rindo, embriagados, viviam em mentiras e risos falsos.

Ela acordou. Gritando. Suando. Respirando. Não tinha morrido.

Lavou o rosto, esticou a roupa de cama, vestiu qualquer coisa e saiu.

Enquanto descia a rua, passou por umas pessoas que riam e fumavam algo que fedia muito... Parecia charuto. Ela se lembrou do sonho. Tossiu, esfregou o nariz que ardeu intensamente com o fedor.

Chegou à estação e viu o céu vermelho.... o frio era intenso. Ela fechou os olhos, fez uma oração...
muitas imagens surgiam em sua mente.

Durante anos ela provou que poderia desafiar a vida e a morte. provou a si mesma seu próprio limite. Provou sabores, texturas, diferentes gostos...

Quando chegou ao seu destino, saiu no amontoado de pessoas, formigueiro de gente... Pensando nas experiencias que fazia na escola enquanto tinha inocência.

Profundos pensamentos suburbanos...
Onde estivera todos esses anos, procurava entender.

26 de julho de 2014

As bombas explodiram em Montreal.

As estrelas caíam, formando desenhos no horizonte. O céu escuro, a lua chorava.
Nas ruas a correria era monstruosa.
Ela caminhava tranquilamente. Como se nada estivesse acontecendo.
Naquela tarde, ela sentiu que algo estava errado. os copos escapavam de suas mãos.
Ontem mesmo ela me disse: "onde eu vou depois?" e se calou.
Eu fiquei cheia de dúvidas na cabeça.
Ela sentiu o cheiro da chuva, dos fogos de artifício...
Ela sentiu e sentiu o coração pulsando forte, fazendo a roupa pular.
E a cabeça girava.
Ontem mesmo ela sentiu.
E hoje tudo isso está acontecendo.
Os cães latindo ferozmente, e os mendigos simplesmente estáticos olhando para o alto com os braços levantados... pobres infelizes que irão para o céu.
Sujeitos de ternos, oratórias sendo gritadas, os óculos que quebraram, as paredes caindo...
E o muro de Berlim que está na memória daqueles que sofreram e o derrubaram.
Não eram nem dez da noite...
Os sinos da igreja começou a tocar, tocar, tocar alto demais, repetido demais, alto demais...
E os vizinhos que gritavam...
As arvores caindo.
E ela caminhando tranquilamente.
Preferiu pegar o rumo de uma rua deserta...

Horas mais tarde, tudo se calou. E ela voltou para casa, deu comida aos gatos, deitou e dormiu.




The bombs exploded in Montreal.

The stars were falling making patterns on the horizon. The dark sky, the moon cried.
On the streets the rush was monstrous.
She walked quietly. As if nothing had happened.
That afternoon, she felt something was wrong.Cups escaping from her hands.

Yesterday she told me: "Where do I go next?" and kept quiet.
I was full of doubts in my mind.
She smelled the rain and the fireworks ...
She felt and felt her heart pounding, doing the clothes jump.
And her head was spinning.
Yesterday she felt.
And now all this is happening.
Dogs barking fiercely, and beggars just staticlooking up with raised arms ... poor unfortunates who are going to heaven.
Guys on suits, orations being shouted, smashed the glasses, the walls falling ...
And the Berlin Wall that is in memory of those who suffered and knocked it over.
It was not even ten at night ...
The church bells began to play, play, play too loud, repeated too much, too loudly ...
And the neighbors screaming ...
The falling trees.
And she going quietly.
She chose to go on a empty street ...

Hours later, all was quiet. And she came back home,gave food to the cats lay down and slept.