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Diante de tudo, ela acende mais um cigarro, o café esfriou.
tirei a blusa.
o espelho mentiu.
de novo.
eu paro tudo.
menos a mĂĄquina de lavar.
e a movimentação da conta pagando boletos.
ficou seco demais.
sĂł listas, e-mails
e recados pro colégio.
te escondi atrĂĄs das panelas e planilhas.
mas o Gu tava com febre.
nĂŁo o suficiente.
pra esquecer. Ou querer.
o barulho sim.
o gosto, nĂŁo.
sĂł Ă s quintas.
Ă s vezes domingos.
tĂĄ aqui.
mas ninguém entra.
principalmente eu.
muito.
mas nĂŁo sei mais te vestir.
entĂŁo volta.
mas vem com calma.
o chĂŁo ainda Ă© feito de cacos.
Ela beberica o café gelado. uma lågrima escorre.
esqueci como abrir envelopes.
tudo Ă© digital agora.
eu escondo. embaixo de tatuagens velhas.
no riso educado.
na legenda da foto.
de nĂŁo ter fugido.
de ter ficado.
de ter deixado morrer o que era sĂł semente.
Ă s vezes.
mas eu engulo.
com o jantar.
ainda sonho com ela.
mas acho que eu nunca a perdoei.
e talvez esteja certa.
quando o medo ficou maior que a vontade.
sim.
sĂł nĂŁo sei o que quebrar.
deixo.
mas arruma depois comigo.
nĂŁo sei. talvez.
mas me avisa antes de gritar.
vou tentar.
com mĂșsica.
com medo.
Ela coloca o coturno sobre a calça rasgada que jå não fecha mais.
Ela força... se irrita. tira tudo. acende outro cigarro e senta na cama. os olhos borrados de rĂmel e lĂĄgrima que queima.
eu deixei ele entrar.
e ele entrou com as botas sujas.
cagou no meu corpo,
cuspiu nas minhas vontades.
e eu ainda pedi desculpa.
por ter ficado triste.
porque eu achei que ninguém mais ia me amar.
porque a abstinĂȘncia era pior que a solidĂŁo.
porque a gente aprende cedo a confundir migalha com banquete.
no fundo de uma gaveta.
com a calcinha de renda e o cigarro apagado.
numa caixa escrita “quando der tempo”.
sim. desculpa.
mas eu tambĂ©m fui traĂda.
por promessas.
por filmes romĂąnticos.
por mĂŁes que disseram “seja boazinha”.
por uma vida que nĂŁo quis saber se eu tava pronta.
por um tempo, sim.
eu me rendi.
Ă rotina, Ă exaustĂŁo, ao medo de enlouquecer.
Ă s vozes dizendo “madura”, “correta”, “responsĂĄvel”, “guerreira”
eu fui tudo.
menos eu.
agora eu quero quebrar.
quebrar a louça,
o espelho,
a porra da expectativa.
com raiva.
com cicatriz.
com os olhos marejando de prazer.
com o cabelo bagunçado e o som no talo.
nĂŁo sei.
mas eu quero renascer.
mas dessa vez…
com vocĂȘ do meu lado. se vocĂȘ quiser.
segura firme.
porque agora a gente vai gritar.
vai sangrar.
vai escrever até doer o pulso.
vai gozar sem pedir licença.
vai amar sem promessa.
vai.
Ela tenta de novo a calça... que fecha. passa um batom vermelho. o café acabou. ela sai e fecha a porta, tranca por fora.
a louça continua na pia.
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